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Pr. Marcelo Augusto de Carvalho

 

 

Curiosidades

03/27

 

 

 

Bom sono nunca é de mais

 

Estudo publicado em "The Lancet" revelou que dormir pouco produz resultados surpreendentes a nível hormonal.

 

Cortar no tempo de sono é cada vez mais frequente nas sociedades industrializadas. que ganhar tempo, nem que seja a sacrificar a saúde. Se em 1910 a média de horas de sono rondava as dez, em 1975 já se dormia somente sete horas e meia. Esta é uma tendência que se acentua e que faz com que muitos trabalhadores hoje em dia quase não preguem olho, descansando uma média de apenas cinco horas.

O que os cientistas vêm agora demonstrar é que a falta de "sono reparador" pode reduzir as funções metabólicas, tais como o processamento e armazenamento de hidratos de carbono e a regulação da segregação de hormônios, mesmo em jovens adultos. Esta é a conclusão de um estudo elaborado no centro médico da Universidade de Chicago e publicado na revista inglesa The Lancet. Reduzindo o tempo de sono de oito para quatro horas por noite dão-se resultados surpreendentes a nível hormonal.

Verificaram-se mudanças na tolerância à glicose e alterações na função endócrina - mudanças essas que fazem lembrar os efeitos da idade avançada ou da diabetes - passado menos de uma semana.

O DN entrou em contacto com a diretora do Laboratório do Sono do Hospital de Santa Maria, Teresa Paiva, e a sua opinião é a de que "este estudo põe o dedo na ferida de uma faceta cultural que se vem banalizando, em que dormir é subsidiário e dispensável numa sociedade virada para o trabalho e o desempenho". Teresa Paiva acrescenta ainda que "o trabalho da The Lancet, ao demonstrar as consequências nefastas da privação do sono, faz repensar a organização social, onde os indivíduos deviam estar em equilíbrio consigo próprios".

 

O estudo consistiu em acompanhar 11 rapazes, saudáveis, durante 16 noites consecutivas. Nas três primeiras, foram autorizados a dormir durante oito horas, das 23 às sete. Nas seis noites seguintes, dormiram apenas quatro horas, da uma às cinco, e, durante os sete últimos dias, passaram 12 horas na cama, das nove da manhã às nove da noite. Os investigadores seguiram e monitorizaram constantemente os níveis de alerta e as batidas cardíacas dos jovens, especialmente nas duas últimas noites dos períodos em que dormiram quatro e oito horas, bem como no primeiro dia e nas duas últimas noites em que dormiram as 12 horas seguidas.

 

Quanto aos resultados, os investigadores chegaram à conclusão que as alterações no metabolismo da glicose se assemelhavam às que se verificam, tipicamente, em pessoas com diabetes de tipo 2. Quando testados no período de privação de sono, os 11 jovens demoravam, em média, 40 por cento a mais de tempo para regular os seus níveis de açúcar no sangue, depois de uma refeição rica em hidratos de carbono. A sua capacidade para a segregação de insulina também decresceu em 30 por cento, um dos sintomas mais frequentes em diabéticos em início de doença.

 

A falta de sono alterou também a produção e a ação de hormônios, aumentando os níveis sanguíneos de cortisol. Este fenômeno é normal em pessoas de idade avançada e normalmente liga-se a problemas com isso relacionados, como a perda de memória. Todos estes fenômenos se foram normalizando a partir do momento em que os jovens começaram a dormir 12 horas. Não foi, porém, um processo imediato. Só passado algum tempo conseguiram repor totalmente as "energias". Os jovens adultos poderão "funcionar" melhor se dormirem durante mais tempo. Esta é a conclusão geral deste estudo.

Apesar de a primeira função do sono ser a de reparar as células cerebrais, os nossos estudos indicam que a falta de sono traz também consequências para as funções periféricas, que, mantidas de um forma crônica, poderão conduzir, a longo prazo, a resultados muito lesivos do organismo", afirmaram os autores deste estudo.