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Pr. Marcelo Augusto de Carvalho

 

 

Curiosidades

08/04

 

 

 

Ritos da Crueldade

Revista Veja, 16 de outubro de 1991

Em 1992, muitos de nós, latino-americanos, comemoraram os quinhentos anos de "descobrimento" da América. Será que temos o que comemorar? A destruição de milhões de indígenas e suas culturas, o nosso subdesenvolvimento, a nossa economia dependente são motivos de comemoração?

Os espanhóis assassinaram milhões de índios

E suas doenças dizimaram outros tantos, mas ver a

Conquista só por esse lado, é ingenuidade.

Choca os espíritos sensíveis descobrir que a conquistas das Américas pela Europa foi encharcada pelo sangue de milhões de indígenas chacinados pelos espanhóis com frieza e até desdém. Neste quinto centenário do descobrimento, fala-se com ressentimento sobre esse assunto. Lembram os críticos de Colombo e dos outros navegantes espanhóis que não apenas mataram os nativos. Eles mataram com perversidade. Assavam prisioneiros em grelhas. Enforcavam cativos em lotes de treze para homenagear o Redentor e seus doze apóstolos. A maldade é tamanha que, numa história do período, relatada em tom solene por uma testemunha comovida, surge mesmo um efeito cômico involuntário. Eis a história : um nativo estava amarrado em troncos para ser queimado quando um padre tentou orientá-lo para rezar e conquistar o céu no último minuto. "Os espanhóis vão para o céu ?", perguntou o índio. "Então quero ir para o inferno, para ficar longe deles."

É quase inevitável tomar o partido dos ameríndios. Mas será um equívoco imaginar, como está na moda entre os novos críticos de Colombo, que a conquista do Novo Mundo não passou de uma expedição sádica, na qual os bons selvagens foram torturados por espanhóis malvados. Muitos povos que habitavam as Américas eram mesmo humildes e pacíficos, mas havia também conquistadores ferozes no hemisfério. O escritor francês Honoré de Balzac observou certa vez que toda grande fortuna está baseada num crime. A mesma coisa acontece com as grandes civilizações. No México pré-colombiano, a civilização dos astecas, tão gabada pelo seu desenvolvimento, era implacável com vizinhos e assustava pela crueldade de seus rituais religiosos, que culminavam com assassinatos.

No que viria a se tornar os Estados Unidos também havia índios dóceis e índios violentos. A noção de bom "povo da floresta", sábio e em perfeita comunhão com a natureza, pode ser muito conveniente para sucessos de Hollywood, como Dança com Lobos. Mas essa não era a vida dos pele-vermelhas. Os índios da Confederação Iroquesa torturavam os prisioneiros para ver até onde agüentavam o tratamento. No Canadá, os chipewyans matavam os velhos para não ter de carregá-los em suas migrações.

E assim foi antes dos comanches e dos astecas e também depois dos espanhóis, em todos os lugares do mundo. "Vamos admitir que todas as conquistas foram cruéis, sangrentas e injustas", afirma o escritor argentino Ernesto Sábato. "Isso se aplica também aos alemães, aos holandeses e aos ingleses." Sábato diz isso em defesa de uma interpretação na América. Na sua opinião, houve violências, mas esse não foi o principal legado da conquistas espanhola, que transportou para as Américas uma cultura complexa e até a língua em que ele escreve seus romances.

Uma coisa que talvez exponha mais a experiência dos espanhóis é que eles chegam às Américas tendo como um de seus principais objetivos a conversão de pagãos ao catolicismo. Iam com a espada numa mão e a cruz na outra – e quando encontravam a indiada só lembravam de usar o fio da espada. Na Europa, funcionava havia séculos uma tradição católica doentia, segundo a qual o cristão fazia muito bem ao matar infiéis, como nas Cruzadas, e agradava a Deus quando acendia fogueiras para torrar os ímpios, como na Inquisição.

Em 1516, submeteu-se à alta cúpula do clero espanhol a questão de que os nativos das Américas eram maltratados. Três reis jerônimos foram enviados à Ilha Hispaniola (hoje Haiti e República Dominicana) para verificar o que acontecia. Os frades deviam responder aos superiores se os nativos eram "nobres selvagens" ou "cães imundos" – e, portanto, indignos de tratamento humano. Ficaram dois anos na ilha e deram seu veredicto : "Cães imundos". O próprio Colombo deixa clara sua opinião desdenhosa no diário que escreveu. "Por um pedaço de corda, eles dão em troca peças de outro do tamanho de dois dedos e, como animais, aceitam até pedaços de barris de vinho em troca de tudo o que têm.", anotou o almirante do Mar Oceano.

Essa visão identificava os integrantes dos povos pré-colombianos como seres sem alma", um status que se atribuiu também à mulher durante um período da Idade Média. Havia muita dubiedade nos conceitos aplicados aos nativos. Eram sem alma na hora do saque de do sadismo. Tinham alma, embora pagã, na hora de justificar o investimento financeiro numa viagem destinada a salvar essas criaturas para o cristianismo.

É indiscutível que houve uma cruzada de extermínio contra os nativos da América. A dúvida é saber quantos morreram e, até mesmo, quantos havia no hemisfério antes da chegada de Colombo. Não há números precisos. As estimativas mais baixas rondam os 10 milhões de indígenas para as Américas. As mais altas de 95 a 110 milhões. Alguns pesquisadores acreditam que pelo menos metade dessa população foi varrida por epidemias introduzidas com a chegada dos espanhóis (sarampo, tifo, varíola e escarlatina) ou pela lâmina das espadas. Os poucos documentos do período reforçam os cálculos atuais dos historiadores e dão a ele a eloqüência das coisas testemunhadas.

"Podemos dar conta boa e certa de que, em quarenta anos, pela tirania e pelas diabólicas ações dos espanhóis, morreram injustamente mais de 12 milhões de pessoas, homens, mulheres e crianças", escreve um espanhol, frei Bartolomé de Las Casas, que dedicou sua vida a defender os nativos e a denunciar a barbárie dos espanhóis conterrâneos. Uma espécie de frei Leonardo Boff daqueles tempos, Las Casas descreve os indígenas como seres dóceis e pacíficos. Mesmo equivocado em sua boa intenção, é hoje um dos mais fortes argumentos dos acusadores de Colombo. Frei Bartolomé desembarcou na América Central em 1502 e foi testemunha direta ou indireta de uma onda de selvageria. No seu livro Bravíssima Relação da Destruição das Índias, ele relata uma das distrações macabras dos espanhóis : "Faziam apostas sobre quem, de um golpe só de espada, fenderia e abriria um homem pela metade, ou quem , mais habilmente e mais destramente, de um só golpe lhe cortaria a cabeça, ou ainda sobre quem abriria melhor as entranhas de um homem de um só golpe."

Entre os grandes acontecimentos históricos, a descoberta da América é um dos mais controversos. Terá sido uma conquista heróica ou uma expedição que só serviu para dizimar inocentes e para destruir culturas preciosas ? O encontro dos indígenas com os europeus foi doloroso, mas será simples oportunismo ou ingenuidade tentar retratá-lo apenas por um de seus lados.

UM CERCO PELOS ASTECAS

 

E tudo isso nos aconteceu. Nós vimos. Ficamos admirados:

Vimo-nos atormentados por esse destino

Triste e digno de lamentações.

Pelo caminho jazem dardos quebrados:

Os cabelos estão espalhados

As casas perderam seus tetos

E vermelhas são suas paredes.

Os vermes pululam pelas ruas e praças,

E as paredes estão manchadas de restos de cérebros.

Vermelhas são as águas, como se tivessem sido tingidas,

E se as bebêssemos, seria água salitre.

Em nossa ansiedade batíamos nos muros com tijolos

E nos restava de herança uma rede esburacada.

Nos escudos estava nosso último refúgio

Mas os escudos não podem acabar com a desolação.

Comemos galhos de árvores.

Comemos grama salitrosa,

Pedaços de tijolos, lagartos, ratos,

E terra reduzida a pó e até mesmo vermes.

Comemos carne mal cozida.

Mal a carne estava cozida, eles a arrancavam,

E a comiam enquanto ela

Ainda estava no fogo.

Puseram-no a preço. O preço do homem jovem, do padre, da criança e da moça. É o bastante: o preço de um pobre era apenas de dois punhados de milho; nosso preço era de apenas vinte tortilhas de grama salitrosa. Ouros jades, ricos casacos, plumagem de quetzal, tudo o que é precioso não tinha mais valor.