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www.4tons.com Pr. Marcelo
Augusto de Carvalho |
Curiosidades 09/20 |
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Michelangelo Michelangelo di Ludovico Buonarroti Simoni (mais
conhecido como Michelangelo) nasceu a 6 de março de
1475, em Caprese, província florentina. Seu pai, Lodovico di Lionardo Buonarroti Simoni, era um homem violento, "temente
de Deus". Sua mãe, Francesca di Neri di Miniato
del Sera,
morreu quando Michelangelo tinha seis anos. Eram cinco irmãos: Leonardo,
Michelangelo Buonarroti, João Simão e Sigismundo. Michelangelo foi entregue aos cuidados de uma ama de leite cujo marido
era cortador de mármore da aldeia vizinha de Settignano.
Mais tarde, brincando, Michelangelo atribuirá a esse fato sua vocação de
escultor. Brincadeira ou não, o certo é que na escola enchia os cadernos de
exercícios com desenhos, totalmente desinteressado das lições sobre outras
matérias. Por causa disso, mais de uma vez foi espancado pelo pai e pelos irmãos de seu pai, a quem parecia vergonhoso ter um
artista na família, justamente uma família de velha e aristocrática linhagem
florentina, mencionada nas crônicas locais desde o século XII. E o orgulho
familiar jamais abandonará Michelangelo. Ele preferirá a qualquer título,
mesmo o mais honroso, a simplicidade altiva de seu nome: "Não sou o escultor
Michelangelo. Sou Michelangelo Buonarroti." Aos 13 anos, sua obstinação vence a do pai: ingressa,
como aprendiz, no estúdio de Domenico Ghirlandaio,
já então considerado mestre da pintura de Florença. Mas o aprendizado é
breve, cerca de um ano, pois Michelangelo irrita-se com o ritmo do ensino,
que lhe parece moroso, e além disso considera a
pintura uma arte limitada: o que busca é uma expressão mais ampla e
monumental. Diz-se também que o motivo da saída do jovem foi outro: seus
primeiros trabalhos revelaram-se tão bons que o professor, enciumado,
preferiu afastar o aluno. Entretanto, nenhuma prova confirma essa versão. Deixando Ghirlandaio, Michelangelo entra
para a escola de escultura que o mecenas Lourenço, o Magnífico, riquíssimo
banqueiro e protetor das artes em Florença, mantinha nos jardins de São
Marcos. Lourenço interessa-se pelo novo estudante: aloja-o no palácio, faz
com que sente à mesa de seus filhos. Michelangelo está em pleno ambiente
físico e cultural do Renascimento italiano. A atmosfera, poética e erudita,
evoca a magnificência da Grécia antiga, seu ideal de beleza - baseado no
equilíbrio das formas -, sua concepção de mundo - a filosofia de Platão,
Michelangelo adere plenamente a esse mundo. Ao produzir O Combate dos
Centauros, baixo-relevo de tema mitológico, sente-se não um artista italiano
inspirado nos padrões clássicos helênicos, mas um escultor grego da verdade.
Em seu primeiro trabalho na pedra, com seus frisos de adolescentes atléticos
e distantes, reinam a força e a beleza impassíveis, como divindades do Olimpo. Na Igreja del Carmine, Michelangelo copia os afrescos de Masaccio. Nos jardins de Lourenço, participa de
requintadas conversas sobre filosofia e estética. Mas seu temperamento
irônico, sua impaciência com a mediocridade e com a lentidão dos colegas, lhe
valem o primeiro - e irreparável - choque com a hostilidade tios invejosos.
Ao ridicularizar o trabalho de um companheiro, Torrigiano
dei Torrigiani - vaidoso e agressivo -, este desfechou-lhe um golpe tão violento no rosto que lhe
achatou para sempre o nariz. Mancha que nunca mais se apagará da sua
sensibilidade e da sua retina, a pequena deformação lhe parecerá daí por
diante um estigma - o de um mundo que o escorraça por não aceitar a grandeza
do seu gênio - e também uma mutilação ainda mais dolorosa para quem, como
ele, era um sofisticado esteta, que considerava a beleza do corpo uma
legítima encarnação divina na forma passageira do ser humano. Em 1490, Michelangelo tem 15 anos. É o ano em que o monge Savonarola começa a inflamada pregação mística que o
levará ao governo de Florença. O anúncio de que a ira Deus em breve desceria
sobre a cidade atemoriza o jovem artista: sonhos e terrores apocalípticos
povoam suas noites. Lourenço, o Magnífico, morre em 1492. Michelangelo deixa
o palácio. A revolução estoura em 1494. Michelangelo, um mês antes, fugira
para Veneza. Longe do caos em que se convertera a aristocrática cidade dos Medicis, Michelangelo se acalma. Passa o inverno em
Bolonha, esquece Savonarola e suas profecias, redescobre
a beleza do mundo. Lê Petrarca, Boccaccio e Dante. Na primavera do ano
seguinte, passa novamente por Florença. Esculpe o Cupido Adormecido - obra
"pagã" num ambiente tomado de fervor religioso - vai a Roma, onde
esculpe Baco Bêbedo, Adônis Morrendo. Enquanto isso, em Florença, Savonarola faz queimar livros e quadros - "as
vaidades e os anátemas". Logo, porém, a situação se inverte. Os partidários do monge começam a
ser perseguidos. Entre eles, está um irmão de Michelangelo, Leonardo - que
também se fizera monge durante as prédicas de Savonarola.
Michelangelo não volta. Em 1498, Savonarola é
queimado. Michelangelo se cala. Nenhuma de suas cartas faz menção a esses
fatos. Mas esculpe a Pietà, onde uma melancolia
indescritível envolve as figuras belas e clássicas. A tristeza instalara-se
em Michelangelo. Na primavera de 1501, ei-lo por
fim em Florença. Nesse mesmo ano, surgirá de suas mãos a primeira obra
madura. Um gigantesco bloco de mármore jazia abandonado há 40 anos no recinto
pertencente à catedral da cidade. Tinha sido entregue ao escultor Duccio, que nele deveria talhar a figura de um profeta, Duccio porém faleceu
repentinamente e o mármore ficou à espera. Michelangelo decidiu trabalhá-lo.
O resultado foi o colossal Davi, símbolo de sua luta contra o Destino, como
Davi ante Golias. Uma comissão de artistas, entre os quais estavam nada menos
que Leonardo da Vinci, Botticelli, Filippino Lippi e Perugino, interroga Michelangelo sobre o lugar onde deveria ficar a
estátua que deslumbra a todos que a contemplam. A resposta do mestre é
segura: na praça central de Florença, defronte ao Palácio da Senhoria. E para
esse local a obra foi transportada. Entretanto, o povo da cidade, chocado com
a nudez da figura, lapidou a estátua, em nome da moral. Da mesma época data a primeira pintura (que se conheça) de
Michelangelo. Trata-se de um tondo - pintura
circular - cujas formas e cores fariam com que, posteriormente, os críticos o
definissem como obra precursora da escola "maneirista". É A Sagrada
Família. Pode-se ver que, mesmo com o pincel, Michelangelo não deixa de ser
escultor. Ou, como ele próprio dizia: "'Uma pintura é tanto melhor
quanto mais se aproxime do relvo". Em março de 1505, Michelangelo é chamado a Roma pelo Papa Júlio II.
Começa então o período heróico de sua vida. A idéia de Júlio II era a de mandar construir para si uma tumba
monumental que recordasse a magnificência da antiga Roma com seus mausoléus
suntuosos e solenes. Michelangelo aceita a incumbência com entusiasmo e
durante oito meses fica em Carrara, meditando sobre
o esquema da obra e selecionando os mármores que nela seriam empregados.
Enormes blocos de pedra começam a chegar a Roma e se acumulam na Praça de São
Pedro, no Vaticano. O assombro do povo mistura-se à vaidade do papa. E à
inveja de outros artistas. Bramante de Urbino, arquiteto de Júlio II, que fora freqüentes vezes
criticado com palavras sarcásticas por Michelangelo, consegue
persuadir o papa a que desista do projeto e o substitua por outro: a
reconstrução da Praça de São Pedro. Em janeiro de l506, Sua Santidade aceita
os conselhos de Bramante. Sem sequer consultar
Michelangelo, decide suspender tudo: o artista está humilhado e cheio de
dívidas. Michelangelo parte de Roma. No dia seguinte, Bramante,
vitorioso, começa a edificação da praça. No entanto, Júlio II quer o mestre
de volta. Esse recusa, tergiversa. Finalmente, encontra-se com o papa em
Bolonha e pede-lhe perdão por ter-se ido. Uma nova incumbência aguarda Michelangelo: executar uma colossal
estátua de bronze para ser erguida em Bolonha. São inúteis os protestos do
artista de que nada entende da fundição desse metal. Que aprenda,
responde-lhe o caprichoso papa. Durante 15 meses, Michelangelo vive mil
acidentes na criação da obra. Escreve ao irmão: "Mal tenho tempo de
comer. Dia e noite, só penso no trabalho. Já passei por tais sofrimentos e
ainda passo por outros que, acredito, se tivesse de fazer a
estátua mais uma vez, minha vida não seria suficiente: é trabalho para um
gigante." O resultado não compensou. A estátua de Júlio II, erguida em fevereiro
de 1508 diante da igreja de São Petrônio, teria apenas quatro anos de vida.
Em dezembro de 1511, foi destruída por uma facção política inimiga do papa e
seus escombros vendidos a um certo Alfonso d'Este,
que deles fez um canhão. De regresso a Roma, Michelangelo deve responder a novo capricho de
Júlio II: Dia 10 de maio de 1508, começa o gigantesco trabalho. A primeira
atitude do artista é recusar o andaime construído especialmente para a obra
por Bramante. Determina que se faça outro, segundo
suas próprias idéias. Em segundo lugar, manda embora os pintores que lhe
haviam sido dados como ajudantes e instrutores na técnica do afresco.
Terceiro, resolve pintar não só a cúpula da capela mas
também suas paredes. É a fase de Michelangelo herói. Herói trágico. Tal como
Prometeu, rouba ao Olimpo o fogo de sua genial
inspiração, embora os abutres das vicissitudes humanas não deixem de
acossá-lo. O trabalho avança muito lentamente. Durante mais de um ano, o papa
não lhe paga um cêntimo sequer. Sua família o atormenta com constantes
pedidos de dinheiro. A substância frágil das paredes faz logo derreter as
primeiras figuras que esboçara. Impaciente com a demora da obra, o papa
constantemente vem perturbar a concentração do artista para saber se o
projeto frutificava. O diálogo é sempre o mesmo: "Quando estará pronta a
minha capela?" - "Quando eu puder!" Irritado, Júlio II faz
toda a sorte de ameaças. Chega a agredir o artista a golpes de bengala.
Michelangelo tenta fugir de Roma. O papa pede desculpas e faz com que lhe
seja entregue - por fim - a soma de 100 ducados. O artista retoma a tarefa. No dia de Finados de 1512, Michelangelo retira os andaimes que
encobriam a perspectiva total da obra e admite o papa à capela. A decoração
estava pronta. A data dedicada aos mortos convinha bem à inauguração dessa
pintura terrível, plena do Espírito do Deus que cria e que mata. Todo o
Antigo Testamento está aí retratado em centenas de figuras e imagens
dramáticas, de incomparável vigor e originalidade de concepção: o corpo
vigoroso de Deus retorcido e retesado no ato supremo da criação do Universo;
Adão que recebe do Senhor o toque vivificador de Sua mão estendida, tocando
os dedos ainda inertes do primeiro homem; Adão e Eva expulsos do Paraíso a
embriaguez de Noé e o Dilúvio Universal; os episódios bíblicos da história do
povo hebreu e os profetas que anunciam o Messias. São visões de um esplendor nunca dantes sonhado, imagens de beleza e
genialidade, momentos supremos do poder criador do homem. No olhar de Júlio
II naquele dia de Finados de 1512 já se prenunciavam os olhares de milhões de
pessoas que, ao longo dos séculos e vindas de todas as partes do mundo, gente
de todas as raças, de todas as religiões, de todas as ideologias políticas,
se deslumbrarão diante da mais célebre obra de arte
do mundo ocidental. Vencedor e vencido, glorioso e alquebrado, Michelangelo regressa a
Florença. Vivendo em retiro, dedica-se a recobrar as forças minadas pelo
prolongado trabalho; a vista fora especialmente afetada e o
mestre cuida então de repousá-la. Mas o repouso é breve: sempre inquieto, Michelangelo volta a entregar-se ao projeto que
jamais minadas pelo prolongado trabalho; a vista fora especialmente afetada e
o mestre cuida então de repousá-la. Mas o repouso é breve: sempre inquieto, Michelangelo volta a entregar-se ao projeto que
jamais deixara de amar; o túmulo monumental de Júlio II. Morto o papa em
fevereiro de 1513, no mês seguinte o artista assina um contrato
comprometendo-se a executar a obra em sete anos. Dela fariam parte 32 grandes
estátuas. Uma logo fica pronta. É o Moisés - considerada a sua mais perfeita
obra de escultura. Segue-se outra, Os Escravos, que se acha no Museu do
Louvre, doada ao soberano Francisco I pelo florentino Roberto Strozzi, exilado na França, que por sua vez a recebera
diretamente do mestre em 1546. Como breve foi o repouso, breve foi a paz. O
novo papa, Leão X, decide emular seu antecessor como protetor das artes.
Chama Michelangelo e oferece-lhe a edificação da fachada da Igreja de São
Lourenço, em Florença. E o artista, estimulado por sua rivalidade com Raffaello - que se aproveitara de sua ausência e da morte
de Bramante para tornar-se o soberano da arte em
Roma -, aceita o convite, sabendo que precisaria suspender os trabalhos
relacionados com a tumba de Júlio II. O pior, porém, é que após anos de
esforços ingentíssimos, após mil e uma
dificuldades, Leão X anulou o contrato com o artista. Só com o sucessor de Leão X, o Papa Clemente VII, Michelangelo
encontra novamente um mecenas que o incita a trabalhar arduamente: deverá
construir a capela e a tumba dos Medicis, sendo-lhe
paga uma pensão mensal três vezes superior à que o
artista exigira. Mas o destino insiste em turvar seus raros momentos de
tranqüilidade: em 1527, a guerra eclode em Florença e Michelangelo, depois de
ajudar a projetar as defesas da cidade, prefere fugir, exilando-se por algum
tempo em Veneza. Restabelecida a paz, o Papa Clemente, fiel
a seu nome, perdoa-lhe os "desvarios"" políticos e o
estimula a reencetar o trabalho da Capela dos Medicis. Com furor c desespero, Michelangelo dedica-se à
obra. Quando o interrogam sobre a escassa semelhança das estátuas com os
membros da poderosa família, ele dá de ombros; "Quem perceberá este
detalhe daqui a dez séculos?" Uma a uma emergem de suas mãos miraculosas as alegorias da Ação, do
Pensamento e as quatro estátuas da base: O Dia, A Noite, A Aurora e O
Crepúsculo, terminadas em 1531, Toda a amargura de
suas desilusões, a angústia dos dias perdidos e das esperanças arruinadas,
toda a melancolia e todo o pessimismo refletem-se nessas obras magníficas e
sombrias. Com a morte de Clemente VII em 1534, Michelangelo - odiado pelo Duque
Alexandre de Medicis - abandona mais uma vez
Florença. Agora, porém, seu exílio em Roma será definitivo. Nunca mais seus
olhos contemplarão a cidade que tanto amou. Vinte e um anos haviam passado
desde sua última estada em Roma: nesse período, produzira três estátuas do
monumento inacabado de Júlio II, sete estátuas inacabadas do monumento
inacabado dos Medicis, a fachada inacabada da
Igreja de São Lourenço, o Cristo inacabado da Igreja de Santa Maria sobre
Minerva e um Apolo inacabado para Baccio Valori. Nesses vinte e um anos, perdeu a saúde, a energia, a fé na arte e na
pátria. Nada parecia mantê-lo vivo: nem a criação, nem a ambição, nela a
esperança. Michelangelo tem 60 anos e um desejo: morrer. Roma, entretanto, lhe trará novo alento: a amizade
com Tommaso dei Cavalieri e com a Marquesa Vittoria Colonna, afastando-o
do tormento e da solidão, permite-lhe aceitar a oferta de Paulo III, que o
nomeia arquiteto-chefe, escultor e pintor do palácio apostólico. De 1536 a
1541, Michelangelo pinta os afrescos do Juízo Universal na Capela Cistina.
Nada melhor que suas próprias idéias sobre pintura para definir essa obra e o
homem que a criou: "A boa pintura aproxima-se de Deus e une-se a Ele...
Não é mais do que uma cópia das suas perfeições, uma sombra do seu pincel,
sua música, sua melodia... Por isso não basta que o pintor seja um grande e
hábil mestre de seu ofício. Penso ser mais importante a pureza e a santidade
de sua vida, tanto quanto possível, a fim de que o Espírito Santo guie seus
pensamentos..." Terminados os afrescos da Cistina, Michelangelo crê enfim poder acabar
o monumento de Júlio II. Mas o papa, insaciável, exige que o ancião de 70
anos pinte os afrescos da Capela Paulina - A Crucifixão de São Pedro e A
Conversão de São Paulo. Concluídas em 1550, foram suas últimas pinturas.
Durante todo esse tempo, os herdeiros do Papa Júlio II não cessaram de perseguir
o artista pelo não cumprimento dos vários contratos por ele assinados para o
término da obra. O quinto contrato seria cumprido. Em janeiro de 1545,
inaugurava-se o monumento. O que restara do plano primitivo? Apenas o Moisés,
no início um detalhe do projeto, agora o centro do monumento executado. De
qualquer forma, Michelangelo estava livre do pesadelo de toda a sua vida. Michelangelo era fechado por natureza. Introvertido e melancólico, era
ao mesmo tempo emotivo e explosivo. Vivia uma vida moderada, mas em meio a
uma sujeira que nem os criados suportavam por muito tempo. Preferia ficar
sozinho, absorto na criação artística que justificava sua existência. Acredita-se que Michelangelo era homossexual, o que explicaria a sua
exagerada preocupação com os nus masculinos de comparação a qualquer outro
artista. Ao que tudo indica, em 1530 apaixonou-se por um jovem nobre, Tomasso Cavalieri, para quem escreveu muitos sonetos de
amor. Cavalieri, retribuiu o afeto, tornando-se
amigo fiel de artista pelo resto da vida. Estava presente diante do leito de
morte de Michelangelo, 34 anos depois de o ter
conhecido. Michelangelo também conhecia Vittoria Colonna, marquesa de Pescara, a quem ele dedicou um amor
platônico e escreveu o poema: "Um homem, ou melhor, um
Deus dentro de uma mulher, Mas o maior admirador do artista talvez tenha sido,
paradoxalmente, o Papa Júlio II, com quem ele tanto brigou. Júlio II
costumava dizer que, de bom grado, doaria seu sangue a alguns anos de sua
vida para prolongar a de Michelangelo, a fim de que o mundo não fosse privado
tão cedo da genialidade do escultor. Também queria que Michelangelo fosse
embalsamado, para que seus restos permanecessem eternos, tal como suas obras.
Talvez Júlio II considerasse que um de seus desejos foi satisfeito:
Michelangelo ainda sobreviveria por meio século à sua morte. O segundo
desejo, entretanto, não se cumpriu: o corpo de Michelangelo apesar de
enterrado com grande pompa, não foi embalsamado. Somente suas obras
perduraram, testemunhando seu gênio para a eternidade. Os últimos anos do mestre ainda foram fecundos, embora numa atividade
diferente: a arquitetura. Dedicou-se ao projeto de São Pedro, tarefa que lhe
custou exaustivos esforços devido às intrigas que lhe tramaram seus acirrados
inimigos. Projetou também o Capitólio - onde se reúne o Senado italiano - e a
Igreja de São João dos Florentinos (cujos planos se perderam). Ainda encontra energias para esculpir. Renegando cada vez mais o
mundo, Michelangelo busca uma união mística com o Cristo. Sua criação, como a
de Botticelli no final da vida, é toda voltada para as cenas da Paixão. De
pé, aos 88 anos de idade, ele elabora penosa e amorosamente uma Pietà, até que a doença o acorrente em definitivo ao
leito, onde - com absoluta lucidez - dita um testamento comovente, vida, é
toda voltada para as cenas da Paixão. De pé, aos 88 anos de idade, ele
elabora penosa e amorosamente uma Pietà, até que a
doença o acorrente em definitivo ao leito, onde - com absoluta lucidez - dita
um testamento comovente, pedindo "regressar pelo menos já morto" à
sua adorada e inesquecível Florença, doando sua alma a Deus e seu corpo à terra. |