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Pr. Marcelo Augusto de Carvalho

 

 

Curiosidades

10/09

 

 

 

As mulheres e o Alcoolismo

A questão do alcoolismo é ampla e atinge os diversos segmentos da esfera social do indivíduo; grupos de trabalho, grupos de relação e a família, possibilitando assim várias abordagens, o que vem sendo feito com freqüência nas últimas duas décadas, quando o alcoolismo passou a ser visto como doença pelo Conselho Mundial de Saúde, e como tal merecendo “tratamento”.

Na verdade, a existência de prejuízos associados ao uso indevido de álcool pelas mulheres é muito maior do que se costuma admitir. O alcoolismo feminino é um fenômeno mais silencioso e discreto que o masculino, devido à carga negativa de estigma. Existe uma diferença de tolerância cultural quanto aos problemas do álcool quando atinge cada um dos sexos. Assim os pileques do garoto são muitas vezes vistos de forma hilariante e, até, estimulados como sinal de masculinidade em algumas sociedades, ou em meios sociais específicos. Para a mulher é diferente, não “fica bem” exagerar, comportamento classificado como não feminino. Cria-se a expectativa d a mulher como exemplo, sempre em controle dos seus atos. Na verdade essa distinção de papéis não se aplica apenas para o caso das bebidas alcoólicas, mas estende-se aos valores básicos determinados culturalmente para os dois sexos.

As discussões sobre a relação entre as mulheres e as bebidas alcoólicas são recentes dentro dos estudos das dependências. As pesquisas desenvolvidas apontam dois aspectos da questão: de um lado, a existência de algumas características específicas do alcoolismo feminino (versus o masculino), de outro, a inveracidade de algumas crenças negativas relacionadas, principalmente, ao tratamento de mulheres.

O padrão de ingestão, as situações e a quantidade do beber das mulheres diferem freqüentemente daqueles do homem, principalmente quando se trata de mulheres não inseridas no mercado de trabalho. Por exemplo, a dona-de-casa alcoolista bebe muito mais em casa do que no bar. Desempenha as primeiras tarefas domésticas do dia e, quando está sozinha, bebe. Geralmente acaba negligenciando algumas tarefas domésticas. No caso da mulher profissionalmente inserida no mercado de trabalho se acrescenta aos problemas mencionados acima os percebidos no alcoolismo masculino, que podem ser: a queda de produtividade no trabalho, dificuldades de relacionamento com os colegas, gastos excessivos com bebida. A mulher alcoolista tende a negar o uso excessivo de álcool; por isso, o diagnóstico médico do alcoolismo entre elas é feito mais tardiamente. Já a evolução do quadro de dependência se dá mais rapidamente do que entre os homens.

A evolução mais devastadora do alcoolismo entre mulheres se dá, principalmente, por dois fatores. Primeiro, porque parecem existir diferenças biológicas que predispõem a mulher a ter mais problemas médicos, mesmo quando bebem menos que o homem, resultando em intoxicação mais imediata. O segundo fator refere-se a reações que variam de vergonha a perplexidade e medo, que geralmente envolvem tanto a mulher alcoolista como sua família quando se deparam com o problema, retardando assim o seu processo de ajuda e tratamento mais que no caso do homem dependente do álcool. Além disso, os serviços, não se dando conta da importância de tratamentos especificamente femininos, não facilitavam a adesão de mulheres ao tratamento, já bastante dificultada pela gama de preconceitos sociais. É importante que o diagnóstico e a procura de ajuda sejam feitos o mais rápido possível. Mas é essencial tratar-se a dependência como uma doença, associada a fatores psicológicos, biológicos e sociais e não como uma falta de caráter do homem e da mulher.

A mulher alcoolista, além da rotulação de “bêbada e irresponsável”, é estigmatizada como a “vergonha da família”, mesmo quando, na maioria das vezes, o marido também bebe. Sentindo-se só em casa, enquanto o marido bebe no botequim, ela freqüentemente bebe por não suportar a sua realidade de preterida. Os filhos por sua vez sentem vergonha da vizinhança, que percebe o alcoolismo da mãe, mas não têm a mesma atitude em relação ao pai que também bebe.

O rótulo de alcoolista carrega uma gama de preconceitos tanto em relação ao homem como em relação à mulher, embora a mulher alcoolista sofra maior discriminação. Ao participar da A.A. ( Alcoólicos anônimos), que é uma irmandade que trabalha como grupo de apoio, no sentido de restabelecer o sujeito à sociedade, o preconceito se ameniza; a mulher passa então a ser vista como uma “ex-alcoolista”. O sentido de estigma se torna mais brando.

A mulher alcoolista chega a A.A. com baixa auto-estima por não cumprir o papel que lhe é exigido socialmente. Ante a possibilidade de uma melhora progressiva, pelos testemunhos e de provas de força e esperança dos membros do grupo, tornando-se uma “ex-alcoolista”, diminuída a carga de estigma, ela recupera perante os outros a confiança por ter superado o vício. O estigma agora se liga ao passado, não mais a um presente sofredor.

Existe uma presença maior de homens nas reuniões de grupo da A.A., talvez porque os homens aceitam mais facilmente a forma de tratamento adotada, demonstrando que não têm vergonha de assumir perante a sociedade a sua condição de doentes. Com a mulher alcoolista é diferente; ela sente dificuldade de assumir o alcoolismo por causa da carga de estigma que suporta.

Apoio coletivo, este é o interesse da A.A. Cada membro encontra no outro uma força para falar de seus problemas com a bebida. Ali o alcoolista pode encontrar pessoas que passaram por problemas parecidos e, se estão todos “no mesmo barco”, consegue através da troca de experiências não mais se sentir sozinho para enfrentar a sua doença. Apresentado como doente, o sujeito tem sua conduta desviante “explicada” de uma forma que o exime parcialmente da responsabilidade pela sua condição; resta-lhe somente a obrigação de se esforçar para se manter sóbrio. Mas essa nova identidade de “doente incurável”, porém “tratável”, também carrega seu próprio estigma de instabilidade e de provável recaída.

Apesar de proporcionar grande alívio a muitas alcoolistas, não se pode dizer que a A.A. neutralize completamente a estigmatização sofrida por essas mulheres, mesmo após deixarem de beber por longos períodos. Mas, mesmo quando A.A. não consegue erradicar definitivamente o estigma sofrido, não há dúvida que, ao abrandá-lo e ao dar um apoio social que permita a recuperação da auto-estima, seu efeito é muito positivo, tanto para seus membros quanto para suas famílias, suas relações de amizade e de trabalho, e também para a sociedade.

Fonte: Jornal A Tarde - Repórter Cláudia Oliveira .

A tênue passagem entre beber socialmente e ir perdendo o controle da vida.

Sexta-feira de um feriadão recente. Quem pôde dormiu até tarde, viajou, torrou na praia ou bebeu um pouco mais que durante a semana. Andando na contramão , uma animada tribo de mais de 5.000 pessoas se reuniu, logo cedo, no pavilhão de eventos do Rio Centro, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Vindas do Brasil inteiro, elas chegavam de ônibus fretado, carro, bicicleta, táxi, ou quem morava nas redondezas, a pé mesmo. Passaram o feriado enfurnadas em auditórios e salas, ouvindo palestras ou dando depoimentos. Mesmo sem se conhecer, reconheciam-se no essencial: à exceção de alguns conferencistas, todos eram alcoólatras. E sobreviventes. Festejavam os cinquenta anos de fundação dos Alcoólicos Anônimos no Brasil ( AA ).

À noite, vestindo roupa mais domingueira, foram lotar o ginásio do maracanãzinho para sua grande festa. Teve selo comemorativo dos correios, Hino Nacional puxado por um coral, a música unidos para sempre cantada de mãos dadas, o cerimonioso desfiles das bandeiras, com quinze países estrangeiros e 26 estados brasileiros representados. A delegação dos Estados Unidos, onde o AA nesceu, em 1935, e hoje abriga mais de 1,7 milhão de alcoólatras, e a da caçula Hungria que abriu seu primeiro grupo só em 1991, receberam aplausos dobrados. Depois vieram os depoimentos ao vivo, narrando a travessia sempre desesperada de cada orador para a sobriedade. Naquela platéia, qualquer um que se levantasse teria uma história de perdas e precipício semelhante para contar. Ao final, na hora da tradicional chamada geral, um frisson de expectativa quase adolescente tomou conta do ginásio.

- Quem tem até três meses de sobriedade contínua? - perguntou o mestre-de-cerimônias, ele mesmo um alcoólatra em recuperação há quase dezessete anos.

A quase totalidade do maracanãzinho respondeu: "Eu!", levantou-se, abraçou-se, festejou. Sentiu-se gente.

- Quem tem até seis meses?... Nove?... E dois anos?... Cinco?... Quem tem mais de dez anos?... Alguém com até vinte anos de sobriedade contínua?

À medida que se aumentava a contagem do tempo de abstinência, diminuía o número de homens e mulheres que permaneciam de pé, no meio da platéia com os braços erguidos de felicidade, eram aplaudidos e se aplaudiam. "No AA, dependemos um do outro, e é isso que ningúem entende" Tenta explicar Ronaldo* um veterano que não bebe há doze anos. Ou, como reza a cartilha da entidade, "se o seu caso é beber, o problema é seu. Se o seu caso é parar de beber, o problema é nosso". Por fim, quando a chamada chegou aos 43 anos de sobriedade, só Jonas continuou de pé. Fez muita gente chorar de esperança. Ali, todos sentiram na garganta o real significado daqueles 43 anos: 15.695 intermináveis dias em que Jonas não cedeu ao primeiro gole da recaída - aquele que já foi descrito como "a mais sedutora procissão de tochas descendo pela sua garganta". Para quem chega ao estágio de precisar beber a intervalos delirantes, de apenas quinze minutos, como o personagem de Nicholas Cage no filme Despedida em Las Vegas, um dia inteiro de abstinência tem a duração de uma vida. Cientes disso e montados numa sabedoria pé-no-chão, os Alcoólicos Anônimos se limitam a tentar não beber por um período de 24 horas.