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Pr. Marcelo Augusto de Carvalho

 

 

Curiosidades

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CAMINHO PARA OUTRAS DROGAS

A bebida é geralmente a primeira substância com que o jovem trava contato e seu consumo é estimulado pela sociedade.

Durante muitos anos, o consumo de maconha foi considerado como o primeiro estágio da dependência química. Depois de fumar cigarros preparados com a erva, a pessoa passaria a usar drogas cada vez mais pesadas e em maior quantidade. As recentes pesquisas, porém, descartam essa tese, batizada de Teoria da Escalada. O resultado dos estudos e a própria experiência dos médicos demonstram que o problema começa de outra forma: no consumo exagerado de bebidas alcoólicas. 

Não há dúvida de que a porta de entrada da dependência é o álcool”, garante o chefe do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, professor Arthur Guerra de Andrade. Como a bebida é socialmente aceita, as doses a mais raramente são consideradas um problema, mas apenas um deslize passageiro. Esse desprezo é incorreto e perigoso, garantem especialistas. Principalmente quando o exagero ocorre na adolescência.

Pesquisa da professora Sandra Schivoletto, em São Paulo, demonstra que o álcool “é a primeira droga usada por adolescentes”. Pelo levantamento, o contato com a bebida ocorre, em média, aos 11 anos. O cigarro vem depois, aos 12 anos. A média de idade para o primeiro uso de maconha é de 13 anos e o da cocaína, 14 anos.

Além de o contato com a bebida ser mais precoce, a relação que o adolescente estabelece com ela também causa preocupação. Grande número de jovens vincula o consumo de bebidas ao lazer. “Associar o álcool ao amadurecimento e ao prazer são atitudes que acabam levando ao abuso”, afirma Sandra.

Outro aspecto fundamental é a facilidade de acesso à bebida. Embora a sua venda seja proibida para menores de 18 anos, em todos os pontos do País existem locais onde jovens compram e ingerem álcool livremente. “A cultura de que os encontros têm de ser regados com bebidas alcoólicas aumentou de forma considerável nos últimos anos e os jovens, para se sentir integrados, acabam adotando esse mesmo hábito”, diz Andrade.

Os especialistas advertem que os perigos são muitos, principalmente quando se leva em conta também o metabolismo de pessoas mais jovens. “Os efeitos são potencializados”, garante Sandra. Para os médicos, nem todas as pessoas que durante um período abusaram da bebida terão problemas ao longo da vida. Mas o risco é alto. 

Os estudos revelam que, por ser a adolescência uma fase de experimentação, fica mais fácil o contato com outras drogas”, garante Sandra. Andrade concorda: “Pessoas que desenvolvem dependência apresentam algumas características comuns, que vão de fatores biológicos a problemas emocionais.” E conclui: “E é por essa razão que os cuidados com o álcool têm de ser redobrados na adolescência.”
 

Do álcool ao pó – A história de Aloísio, de 20 anos, comprova o alerta feito por especialistas. O processo de dependência química começou aos 13 anos, quando ele passou a beber de forma indiscriminada. Pouco tempo depois, o garoto experimentou maconha. “Não gostei da experiência e continuei apenas bebendo demais”, relata. Aos 14 anos, começou a usar cocaína. A mãe de Aloísio somente percebeu o problema um ano depois. “Eu me envolvi em uma briga e levei um tiro que me perfurou o pulmão”, conta o jovem. “Minha mãe soube apenas quando chegou ao hospital e conversou com os médicos.” Depois da recuperação no hospital, Aloísio foi internado em uma clínica para dependentes, na primeira de uma série de tentativas para livrá-lo da dependência. Entre o período “limpo” e os de recaída, uma série de problemas apareceu. Aloísio foi expulso de várias escolas e parou de estudar e de conversar com amigos e familiares. Internado novamente em uma clínica, espera agora escapar de uma vez das drogas. “Até pouco tempo atrás, não botava fé nos tratamentos, mas desta vez acho que vai dar certo”, diz.

Marketing para jovens – A professora do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP Beatriz Carlini Cotrim lembra que o consumo de álcool aumentou de forma significativa. “O marketing hoje é voltado para conquistar um público mais jovem”, afirma. Para Beatriz, o ideal seria que limites mais rígidos fossem fixados para impedir o acesso dos adolescentes ao álcool. “É claro que a medida sozinha não basta, mas é preciso começar de algum ponto”, explica. A especialista acha que a geração atual de pais reluta muito em impor proibições e limites aos filhos: “A sociedade ficou traumatizada com a ditadura e hoje tem dificuldades para estabelecer certas normas.” Beatriz, contudo, entende que os pais deveriam ser mais severos com relação à bebida e mais rigorosos na fiscalização do consumo de álcool. “Álcool não é iogurte de morango, pois sua ingestão traz vários riscos e, por essa razão, ele não pode ser usado de forma irresponsável.” As críticas da professora têm uma justificativa: em pesquisa que fez com Alice Chasin, sobre as mortes violentas ocorridas na região metropolitana de São Paulo em 1994, constatou que 50% dos atropelados, 60% dos afogados e 50% das vítimas de homicídio haviam ingerido altas doses de álcool.

Fonte: Jornal o Estado de São Paulo - Repórter Ligia Formenti